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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Eles existiram por oito séculos. Eram conhecidos pela coragem, lealdade, orgulho, disciplina e as habilidades com a espada, a katana.

Até pouco tempo, os samurais habitavam nossa imaginação
como bravos guerreiros, principalmente por causa dos filmes e livros. Mas o que pouca gente sabe é que eles possuíam condutas rígidas, seguidas por toda a vida. Esse conjunto de normas chamava-se Bushidô.

Segundo Sidharta Rezende, um dos coordenadores do
instituto Niten, responsável por difundir a cultura dos samurais no Brasil, a palavra Bushidô significa literalmente "o caminho do guerreiro" e ele pode e deve ser usado nas situações mais simples dos dias atuais.

Dois bons exemplos de conduta bushidô é sempre tratar as
pessoas com dignidade, mesmo que haja discordância de idéias, e não chegar atrasado aos compromissos. São comportamentos simples, que muitas vezes nós esquecemos de seguir.

"O bushidô era um código de honra não escrito e um modo
de vida para os samurais que fornecia parâmetros para esse guerreiro viver e morrer com honra. Seguir o bushidô é dar ênfase à lealdade, fidelidade, auto-sacrifício, justiça, humildade e, acima de tudo, honra", ensina Rezende.

Mas como desenvolver todas essas virtudes nos dias atuais?
O instrutor explica que o verdadeiro guerreiro é aquele que busca seu próprio caminho, e, segundo ele, todas as pessoas têm condições de crescer interiormente.   

"Muitos podem estar perfeitamente buscando o caminho sem
saber disso. Guerreiro é a pessoa que tem um objetivo, e, por meio deste, passa a ter consciência de seu dom e limitações. Através dessa consciência, o guerreiro atinge sua meta, combinada com a vontade de vencer fraquezas, temores e limitações".

Além da busca pelo aprimoramento pessoal constante, o
Bushidô também ensina a ser mais tolerante com o próximo e a encarar os desafios com serenidade.

Rezende cita duas experiências pessoais para ilustrar sua
explicação. "Pratico o Kenjutsu, a arte marcial com espadas dos samurais, há doze anos e aprendi que os problemas devem ser solucionados por partes e com a maior serenidade possível. O samurai não terminava a luta de uma só vez. Ele ia minando as forças do adversário até desferir o golpe fatal.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

sábado, 11 de setembro de 2010

Após semi brasileira, Guilheiro fica com a prata no Mundial e Canto é quinto.


A nova regra da Federação Internacional de Judô que permitiu a inscrição de dois lutadores por categoria fez com que o Brasil visse uma inédita semifinal entre dois judocas do país no Mundial do Japão. E após uma luta nacional dramática, Leandro Guilheiro ficou com a prata e Flávio Canto foi quinto na categoria até 81kg.
A luta entre os brasileiros na semifinal foi marcada por muito estudo de ambos os lados, com os dois procurando o ataque certo. Isso fez com que o combate ficasse truncado e pouco movimentado. Ainda sim, Guilheiro conseguiu a vitória por dois yukos, por conta de duas punições para canto.
Como não poderia ser diferente, Leandro nem mesmo comemorou a vitória sobre Flávio e ambos foram muito aplaudidos pelo público após um longo abraço.
Na decisão, Leandro Guilheiro foi para o ataque e procurou mais o combate, mas o sul-coreano Jae-Bum Kim, líder do ranking mundial, controlou bem o combate e consegui o título no golden score. E na disputa pela medalha de bronze, Flávio Canto perdeu para o britânico Euan Burton.

O caminho até a semi brasileira

Leandro Guilheiro começou o dia com vitória por dois yukos sobre Konstantins Ovchinnikovs, da Letônia. Em seguida, um wazari e três penalidades garantiram o resultado sobre o argentino Alfredo Effron e um ippon deu a vitória sobre o japonês Takahiro Nakai.
Nas oitavas de final o adversário foi o vice-campeão mundial Francesco Bruyere, da Itália. A vitória veio com um ippon, sem contar o wazari e dois yuko que tinha conseguido antes. A vaga para sua primeira semifinal em Mundial adulto veio com um ippon sobre o russo Sirazhudin Magomedov.
Do outro lado da chave, Flávio Canto abriu sua participação passando fácil pelo tailandês Watcharin Jampawong. A vitória seguinte veio com outro ippon rápido, agora sobre o francês Antoine Jeannin.
Com outra bela atuação, Canto passou pelo canadense Kalem Kachur. O rival das quartas de final era o campeão olímpico Elnur Mammadli, do Azerbaijão. Mas a vitória veio com uma impressionante chave de braço antes do confronto brasileiro da semifinal.

 

Brasileiros falham e país fica sem medalhas no 3º dia do Mundial

Brasileiros falham e país fica sem medalhas no 3º dia do Mundial de Judô

Depois de duas medalhas de prata nos dois primeiros dias de competição, com Mayra Aguiar e Leandro Guilheiro, o Brasil acabou não subindo ao pódio nas disputas deste sábado do Mundial de Judô, que está sendo realizado na capital japonesa, Tóquio.
O dia começo ruim no feminino. Na primeira luta de todo o torneio que foi decidida na bandeirinha dos juízes de cadeira, depois de 5min regulamentares de luta e mais 3min de prorrogação, Rafaela Silva acabou perdendo para a japonesa Nae Udaka logo na primeira rodada na categoria de até 57 kg.
Já no meio-médio feminino, de até 63, o Brasil até começou bem com Mariana Silva, que venceu a australiana Kylie Konig por ippon na rodada inicial. Mas no combate seguinte, em uma luta muito truncada, acabou sendo derrotada pela holandesa Anicka Van Emden por apenas um yuko após uma punição.
Único lutador masculino do Brasil a entrar no tatame pelo torneio neste terceiro dia de competição, Bruno Mendonça também acabou sendo eliminado no primeiro combate. Depois de não ter lutado na rodada preliminar, ele foi eliminado ao perder para o chinês Liu Wei por um wazari.
Agora, no último dia de competição por peso, a seleção brasileira terá mais quatro judocas no tatame neste domingo. No masculino, Leandro Cunha luta na categoria até 66 kg e Felipe Kitadai no peso até 60kg. Já a categoria até 52kg feminino terá Erika Miranda, enquanto Sarah Menezes disputa o peso até 48kg.
PÓDIOS DO TERCEIRO DIA
Masculino até 73kg
1º) Hiroyuki Akimoto (JAP)
2º) Dex Elmont (HOL)
3º) Yasuhiro Awano (JAP)
3º) Ki-Chun Wang (CDS)
Feminino até 63kg
1º) Yoshie Ueno (JAP)
2º) Miki Tanaka (JAP)
3º) Yaritza Abel (CUB)
3º) Ramila Yusubova (AZE)
Feminino até 57kg
1º) Kaori Matsumoto (JAP)
2º) Telma Monteiro (POR)
3º) Ioulietta Boukouvala (GRE)
3º) Sabrina Filzmoser (AUT)

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Bushido


Bushido significa literalmente, "caminho do guerreiro" - era um código de honra não-escrito e um modo de vida para os samurais (a classe guerreira do Japão feudal ou bushi), que fornecia parâmetros para esse guerreiro viver e morrer com honra.
"Seguir o bushido, é dar ênfase à lealdade, fidelidade, auto sacrifício, justiça, modos refinados, humildade, espírito marcial e honra acima de tudo, morrer com dignidade".
Bushido é formado e influenciado pelos conceitos do Budismo, Xintoísmo e Confucionismo. A combinação dessas doutrinas e religiões, formaram o código de honra do guerreiro samurai, conhecido como bushido.
O Budismo se relaciona com o bushido, através do destemor do perigo e da morte. O samurai não temia a morte pois acreditava nos ensinamentos budista, que pregava a vida após a morte. Voltaria no encargo de guerreiro em suas contínuas reencarnações. Os samurais não tinham medo do perigo, as técnicas de meditação do Zen, foram usadas como um meio de limitar esse temor. Com os ensinamentos Zen, os samurais buscavam entrar em harmonia com seu Eu interior e com o mundo a sua volta. O desapego era a base do samurai, com a pratica do desapego, o samurai se tornou a maior casta de guerreiros que já existiu.
Bushido foi influenciado também, pelos preceitos do Xintoísmo, como a lealdade, o patriotismo, e a reverência aos seus antepassado. Com tal lealdade para com a memória de seus ancestrais, os samurais empenham essa mesma reverência ao imperador e ao seu daimyo ou senhor feudal. Xintoísmo também fornece importância para patriotismo com seu país, o Japão. Eles crêem que a Terra não existe apenas para suprir as necessidades das pessoas. "É a residência sagrada dos deuses, dos espíritos de seus antepassados..." A Terra deve ser cuidada, protegida e alimentada por um patriotismo intenso.
O Confucionismo oferece ao bushido, sua crença em relação aos seres humanos e suas famílias. Confucionismo ressalta o dever filial e as relações entre senhor e servo, pai e filho, marido e mulher, irmão mais velho e mais novo e entre amigos, que são seguidas pelos samurai. Junto com estas virtudes, o bushido também prega a justiça, benevolência, amor, sinceridade, honestidade, e autocontrole. Justiça é um dos principais fatores no código do samurai, assim como o amor e a benevolência que são suntuosas virtudes dos samurais.
Bushido, literalmente traduzido, significa "Caminho do Guerreiro", bushi "guerreiro" do "caminho". Neste sentido, o ideograma para caminho, em japonês, é equivalente à forma chinesa “Tao”, e exprime o conceito filosófico de absoluto. Este conceito traz a idéia de origem, princípio e essência de todas coisas.
"O bushido, significa a vida total do guerreiro, sua devoção a espada, seu respeito às normas ditadas pelo Confucionismo. Não é apenas um sistema de ética a ser seguido pelas classes sociais. É a estrada do cosmo, os vestígios sagrados dos Céus, apontando o Caminho". – O Livro Dos Cinco Anéis.
No geral, guerreiro é aquele que busca seu próprio caminho. Muitas pessoas podem estar perfeitamente buscando o caminho sem saber disso. Guerreiro é a pessoa que tem um objetivo, e que por meio deste, passa a ter consciência de seu dom e suas limitações. Através dessa consciência, o guerreiro atinge sua meta, combinada com a vontade de vencer fraquezas, temores e limitações.
Cada pessoa trilha seu próprio caminho, já que existem vários caminhos como o caminho da cura pelo médico, o caminho da literatura pelo poeta ou escritor, e muitas outras artes e habilidades. Cada pessoa pratica de acordo com a sua inclinação. Por isso pode-se chamar de guerreiro, aquele que segue seu caminho específico.
Porém, no bushido, a palavra guerreiro significa muito mais do que isso. O termo bushi não pode ser designado a qualquer um. O bushi é diferente, pois seus estudos do caminho baseiam-se em superar os homens. A casta guerreira se distingue das demais por sua fidelidade e honra, a palavra do guerreiro vale mais do que tudo.
"Quando o guerreiro assume uma responsabilidade, mantém sua palavra. Os que prometem e não cumprem, perde respeito próprio, tem vergonha de seus atos e sua vida consiste em fugir, gastam mais energia dando desculpas para desonrar sua palavra, do que o guerreiro usa para manter seu compromisso. Ás vezes o guerreiro assume uma responsabilidade que resultará em prejuízo. Não torna a repetir esta atitude, mas honra o que disse e paga o preço de sua impulsividade". – Manual Do Guerreiro Da Luz.
O caminho do guerreiro é o caminho da pena e da espada, esse conceito vem do antigo Japão feudal e determinava que a nobreza (bushi) dominasse tanto a arte da guerra quanto a leitura, e que ele deve apreciar ambas as artes. O bushi deve aprender o caminho de todas as profissões, se informar sobre todos os assuntos, apreciar as artes e quando não estiver ocupado em suas obrigações militares, deverá estar sempre praticando algo, seja a leitura ou a escrita, armazenando em sua mente a história antiga e o conhecimento geral, comportando-se bem a todo momento para ter uma postura digna de um samurai, tudo isso sem desviar do verdadeiro caminho, o bushido.
A etiqueta deve ser seguida, todos os dias da vida cotidiana, assim como na guerra pelos samurais. Sinceridade e honestidade são as virtudes que avaliam suas vidas. Transcender um pacto de fidelidade completa e confiança esta ligado à dignidade. Os samurais também precisavam ter autocontrole, desapego e austeridade para manter sua honra, em função disso, podemos dizer que o samurai é o guerreiro completo e seu código de honra - o bushido - tem forte influência no estilo de vida do povo japonês e oferece uma explicação do caráter e da indomável força interior desse povo.
Para o bushido, o caminho do guerreiro exige que a conduta de um homem seja correta em todos os sentidos, dessa forma, a preguiça é um mal que deve ser abominado. Mas existe problemas quando a pessoa se apóia no futuro, pois torna-se preguiçosa e indolente, já que deixam pra amanhã, aquilo que poderia ser feito hoje. Pessoas que agem dessa maneira, não seguem o verdadeiro preceito do bushido, que de um modo geral, é a aceitação resoluta da morte.
"Um samurai deve antes de tudo ter sempre em mente, dia e noite, desde a manhã de ano novo, quando pega os palitos para tomar café, até a noite do último dia do ano, quando paga suas faturas, o fato de que um dia irá morrer. Essa é a sua principal tarefa”. – Bushido O Código Do Samurai – Daidoji Yuzan.
Se o guerreiro tem plena consciência da morte, evitará conflitos, estará livre de doenças, além de ter uma personalidade com muitas qualidades e diferenciada às dos demais seres humanos. O guerreiro vive o presente sem se preocupar com o amanhã, de modo que quando contempla o rosto das pessoas, sente como se nunca mais fosse vê-los novamente, e portanto, seu dever e consideração as pessoas, serão profundamente sinceros. O verdadeiro guerreiro é aquele que aceita a morte, dessa maneira, ele não irá se meter em discussões desnecessárias que venham a provocar um conflito maior, já que assim ele pode acabar sendo morto, e isso talvez resultaria na sua desonra ou afligiria a reputação e nome de sua família. Se a idéia de morte é mantida, será cuidadoso e suscetível de ser discreto e não dirá coisas que ofendam às outras pessoas. Também não cometerão excessos doentios com a comida, bebida e sexo, usando a moderação e a privação em tudo, permanecendo livre de doenças e mantendo uma vida saudável.
O guerreiro deve arder com a morte em desespero. “Naoshige disse uma vez: - O bushido significa a morte em desespero. Várias dezenas de samurais sadios não podem matar um único samurai (que arda com essa morte em desespero). Homens sadios, de mente calmamente bem-compostas não podem realizar um grande empreendimento. Você só precisa ficar desesperado a ponto de morrer. Se a discrição e a consideração do momento fundem-se com seu bushido, você na certa hesitará e ficará aquém de sua espreita”. – Bushido: O Caminho do Samurai - Tsuramoto Tashiro.
Resumindo, bushi é aquele que segue o caminho do guerreiro. Miyamoto Musashi dizia: - Os homens devem moldar seu caminho. A partir do momento em que você ver o caminho em tudo o que fizer, você se tornará o caminho.

Fonte: Instituto Niten
Pensamentos

"Nunca esquecer que no caminho das Artes Marciais, as recompensas serão abundantes somente com dedicação e aplicação." [ Masutatsu Oyama ]
"A verdadeira essência das Artes Marciais só poderá ser realizada através da experiência, o segredo e mistério está em ganhar experiência." [ Masutatsu Oyama ]
"As Artes Marciais começam num ponto de harmonia e terminam num círculo de harmonia, o qual contém uma linha de movimentos corretos e exatos." [ Masutatsu Oyama ]
"O caminho das Artes Marciais é Universal e todos os desejos egoístas, devem arder no fogo endurecedor dos rigorosos treinos." [ Masutatsu Oyama ]
"Nas Artes Marciais a meditação e introspecção sobre as ações do passado, conduz-nos á habilidade e sabedoria para as ações futuras." [ Masutatsu Oyama ]
"Para saber que nós sabemos o que nós sabemos, e para saber que nós não sabemos o que nós não sabemos, isso é o conhecimento verdadeiro. " [ Nicolau Copérnico ]
"A sabedoria da natureza é tal que não produz nada de supérfluo ou inútil. " [ Nicolau Copérnico ]
"Não é um plano ruim manter-se quieto ocasionalmente quando você sabe do que está falando." [ Kin Hubbard ]
"A sabedoria é uma construção sólida e única, na qual cada parte tem seu lugar e deixa sua marca." [ Michel de Montaigne ]
"A sabedoria não nos é dada. É preciso descobri-la por nós mesmos, depois de uma viagem que ninguém nos pode poupar ou fazer por nós." [ Marcel Proust ]
"Não me entrego sem lutar, tenho ainda coração. Não aprendi a me render, que caia o inimigo então..."
Obs.: Trecho de Metal Contra as Nuvens. [ Renato Russo ]
"Meu amor, disciplina é liberdade, compaixão é fortaleza, ter bondade é ter coragem..."
Obs.: Trecho de Há Tempos. [ Renato Russo ]
"A força para mudar o que eu posso, a inabilidade para aceitar o que eu não posso, e a incapacidade para contar a diferença." [ Bill Watterson ]
"A razão do mais forte é sempre a melhor." [ Jean de La Fontaine ]
"Direi que o gigante é menos forte que a pulga, pelo simples fato de esta o morder ?" [ Jean de La Fontaine ]
"Quanto maior o obstáculo, mais forte o desejo." [ Jean de La Fontaine ]
"A perseverança é mais eficaz do que a violência, e muitas coisas que, quando reunidas, são invencíveis, cedem a quem as enfrenta um pouco de cada vez." [ Plutarco ]
"Acho que nossas chances não parecem boas hoje mas a única forma de falhar para mim é apenas não tentando." [ Gary Kasparov ]
"Contra ti me arremessarei, invencível e persistente, ó Morte!" [ Virginia Woolf ]

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Entre o Céu e o Inferno
Conta a lenda que um dia um samurai, grande e forte, conhecido pela sua índole violenta foi procurar um sábio monge em busca de respostas para suas dúvidas.
Monge, disse o samurai com desejo sincero de aprender,
Ensina-me sobre o céu e o inferno!
O monge, de pequena estatura e franzino, olhou para o bravo guerreiro e simulando desprezo disse:
- Eu não poderia ensinar-lhe coisa alguma. Você está imundo. Seu mau cheiro é insuportável!
Ademais, a lâmina da sua espada está enferrujada.
Você é uma vergonha para a sua classe!
O samurai ficou enfurecido.
O sangue lhe subiu ao rosto e ele não conseguiu dizer nenhuma palavra, tamanha era sua raiva.
Empunhou a espada, ergueu-a sobre a cabeça e se preparou para decapitar o monge.
- Aí começa o inferno! - disse o sábio mansamente.
O samurai ficou imóvel. A sabedoria daquele pequeno homem o impressionara. Afinal, arriscou a própria vida para lhe ensinar sobre o inferno. O bravo guerreiro abaixou lentamente a espada e agradeceu ao monge pelo valioso ensinamento. O velho sábio continuou em silêncio. Passado algum tempo o samurai, já com a intimidade pacificada, pediu humildemente ao monge que lhe perdoasse o gesto infeliz. Percebendo que o pedido era honesto, o monge lhe falou: - Aí começa o céu!.
Portanto o céu e o inferno podemos construir na própria intimidade. São estados de espírito que elegemos no dia-a-dia. A cada instante somos convidados a tomar decisões que definirão o início do céu ou o começo do inferno. É como se todos fôssemos portadores de uma caixa invisível, onde houvessem também ferramentas e materiais de primeiros-socorros. Diante de uma situação inesperada, podemos abri-la e lançar mão de qualquer objeto do seu interior. Assim, quando alguém nos ofende ou atinge, podemos erguer o martelo da ira ou usar o bálsamo da tolerância.
Visitados pela calúnia, podemos usar o machado do revide ou a gaze da autoconfiança. Quando injúria bater em nossa porta, podemos usar o aguilhão da vingança ou o óleo da compreensão e talvez do perdão. Diante da enfermidade inesperada, podemos lançar mão do ácido dissolvente da revolta ou empunhar o escudo da fé. Ante a partida de um ente caro, nos braços da morte inevitável, podemos optar pelo punhal do desespero ou pela chave da aceitação.

Enfim, surpreendidos pelas mais diversas e infelizes situações, poderemos sempre optar por abrir abismos de incompreensão ou estender a ponte do diálogo que nos possibilite uma solução feliz.
A decisão depende sempre de nós.
E ela do nosso estado íntimo.
Portanto, criar céus ou infernos, portas lá dentro da alma, é algo que ninguém poderá fazer por nós. Sua vontade é soberana. Sua intimidade é um santuário do qual só você possui a chave. Preservá-la das investidas das sombras ou abri-la para que o sol possa iluminá-la só depende de você.
Os Portais do Paraíso

Um orgulhoso guerreiro chamado Nobushige foi até Hakuin, e perguntou-lhe: "Se existe um paraíso e um inferno, onde estão?" "Quem é você?" perguntou Hakuin. "Eu sou um samurai!" o guerreiro exclamou. "Você, um guerreiro!" riu-se Hakuin. "Que espécie de governante teria tal guarda? Sua aparência é a de um mendigo!".
Nobushige ficou tão raivoso que começou a desembainhar sua espada, mas Hakuin continuou:
"Então você tem uma espada! Sua arma provavelmente está tão cega que não cortará minha cabeça..."
O samurai retirou a espada num gesto rápido e avançou pronto para matar, gritando de ódio. Neste momento Hakuin gritou:
"Acabaram de se abrir os Portais do Inferno!"
Ao ouvir estas palavras, e percebendo a sabedoria do mestre, o samurai embainhou sua espada e fez-lhe uma profunda reverência.
"Acabaram de se abrir os Portais do Paraíso," disse suavemente Hakuin.
Existem duas lendas que supostamente deram origem ao judô, uma japonesa e outra chinesa.
A lenda japonesa fala de um salgueiro e de uma cerejeira no inverno...
Os galhos da cerejeira quebravam tal fósforos sob o peso da neve, enquanto que o salgueiro, flexível, cedia, fazia a neve escorregar e não lhe dava chance de pressioná-lo.
Este é o princípio do Judô : “Ceder para Vencer”.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Pensamentos de Sun Tzu

“Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas.”

“A vantagem estratégica desenvolvida por bons guerreiros é como o movimento de uma pedra redonda, rolando por uma montanha de 300 metros de altura. A força necessária é insignificante; o resultado, espetacular.”

“Se você descobrir o ponto fraco do oponente, você tem que afetá-lo com rapidez. Capture, inicialmente, aquilo que for muito valioso para o inimigo. Não deixe que seja revelado a hora do seu ataque.”

“É de suprema importância atacar a estratégia do inimigo.”

“Quando cercar o inimigo, deixe uma saída para ele. Caso contrário, ele lutará até a morte.”

“(…) se não é vantajoso, nunca envie suas tropas; se não lhe rende ganhos, nunca utilize seus homens; se não é uma situação perigosa, nunca lute uma batalha precipitada…”

“Quando capaz, finja ser incapaz; quando pronto, finja despreparado; quando próximo, finja estar longe; quando longe, façam acreditar que está próximo.”

“É preferível capturar o exército inimigo a destruí-lo. Obter uma centena de batalhas não é o cúmulo da habilidade. Dominar o inimigo sem combater, isso sim é o cúmulo da habilidade.”

“Se numericamente és mais fraco, procura a retirada.”

“Aquele que é prudente e espera por um inimigo imprudente será vitorioso.”

“(…) um comandante militar deve atacar onde o inimigo está desprevenido e deve utilizar caminhos que, para o inimigo, são inesperados…”

“(…) qualquer operação militar tem na dissimulação sua qualidade básica…”

“Diante de uma larga frente de batalha, procure o ponto mais fraco e, alí, ataque com a sua maior força.”

“Na arte da guerra, a melhor opção é tomar o país inimigo intacto. Esmagá-lo á apenas a segunda melhor opção.”

“A vitória é o principal objetivo na guerra. Se tardar a ser alcançada, as armas embotam-se e a moral baixa.”

“Um grande general não é arrastado ao combate. Ao contrário, sabe impô-lo ao inimigo.”

“A estratégia sem tática é o caminho mais lento para a vitória. Tática sem estratégia é o ruído antes da derrota.”

“Mantenha-os sob tensão e canse-os.”

“Atacai-o onde não estiver preparado. Executai as vossas investidas somente quando não vos esperar.”

“A invencibilidade está na defesa; a possibilidade de vitória, no ataque. Quem se defende mostra que sua força é inadequada; quem ataca, mostra que ela é abundante.”

“O principal objetivo da guerra é a paz.”

“Comandar muitos é o mesmo que comandar poucos. Tudo é uma questão de organização.”

O Samurai e o presente.
Perto de Tóquio vivia um grande samurai, já idoso, que adorava ensinar sua filosofia para os jovens. Apesar de sua idade, corria a lenda que ele ainda era capaz de derrotar qualquer adversário.
Certa tarde, um guerreiro conhecido por sua total falta de escrúpulos apareceu por ali. Era famoso por utilizar a técnica da provocação: esperava que seu adversário fizesse o primeiro movimento e, dotado de uma inteligência privilegiada para reparar os erros cometidos contra-atacava com velocidade fulminante. O jovem e impaciente guerreiro jamais havia perdido uma luta. E, conhecendo a reputação do velho samurai, estava ali para derrotá-lo, aumentando sua fama de vencedor.
Todos os estudantes manifestaram-se contra a idéia, mas o velho aceitou o desafio. Foram todos para a praça da cidade, e o jovem começou a insultar o velho mestre. Chutou algumas pedras em sua direção, cuspiu em seu rosto, gritou todos os insultos conhecidos – ofendeu inclusive seus ancestrais.
Durante horas fez tudo para provocá-lo, mas o velho mestre permaneceu impassível. No final da tarde, sentindo- se já exausto e humilhado, o impetuoso guerreiro retirou- se.
Desapontados pelo fato do mestre ter aceito tantos insultos e provocações, os alunos perguntaram:
- Como o senhor pode suportar tanta indignidade? Por que não usou sua espada, mesmo sabendo que podia perder a luta, ao invés de mostrar-se covarde diante de todos nós?
- Se alguém chega até você com um presente, e você não o aceita, a quem pertence o presente? – perguntou o velho samurai
- A quem tentou entregá-lo – respondeu um dos discípulos.
- O mesmo vale para a inveja, a raiva, e os insultos – disse o mestre – Quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carrega consigo.

“Na discussão, o vencido obtém maior proveito, pois aprende o que ainda não sabia.”
“Não podemos viver felizes se não formos justos, sensatos e bons; e não podemos ser justos, sensatos e bons sem sermos felizes.”
“Quem exige ajuda constante, e, do mesmo modo, quem nunca a presta, não é amigo. O primeiro quer comprar o nosso esforço com o seu afeto; o segundo nos rouba, para todo o futuro, a esperança consoladora.”
O SAMURAI E O MESTRE ZEN




Certo dia, um Samurai, que era um guerreiro muito orgulhoso, veio ver um Mestre Zen. Embora fosse muito famoso, ao olhar o Mestre, sua beleza e o encanto daquele momento, o Samurai sentiu-se repentinamente inferior.
Ele então disse ao Mestre:
- "Por que estou me sentindo inferior? Apenas um momento atrás, tudo estava bem. Quando aqui entrei, subitamente me senti inferior e jamais me sentira assim antes. Encarei a morte muitas vezes, mas nunca experimentei medo algum. Por que estou me sentindo assustado agora?"
O Mestre falou:
- "Espere. Quando todos tiverem partido, responderei."
Durante todo o dia, pessoas chegavam para ver o Mestre, e o Samurai estava ficando mais e mais cansado de esperar. Ao anoitecer, quando o quarto estava vazio, o Samurai perguntou novamente:
- "Agora o senhor pode me responder por que me sinto inferior?"
O Mestre o levou para fora. Era uma noite de lua cheia e a lua estava justamente surgindo no horizonte. Ele disse:
- "Olhe para estas duas árvores: a árvore alta e a árvore pequena ao seu lado. Ambas estiveram juntas ao lado de minha janela durante anos e nunca houve problema algum. A árvore menor jamais disse à maior: 'Por que me sinto inferior diante de você?' Esta árvore é pequena e aquela é grande - este é o fato, e nunca ouvi sussurro algum sobre isso."
O Samurai então argumentou:
- "Isto se dá porque elas não podem se comparar."
E o Mestre replicou:
- "Então não precisa me perguntar. Você sabe a resposta. Quando você não compara, toda a inferioridade e superioridade desaparecem. Você é o que é e simplesmente existe. Um pequeno arbusto ou uma grande e alta árvore, não importa, você é você mesmo. Uma folhinha da relva é tão necessária quanto a maior das estrelas. O canto de um pássaro é tão necessário quanto qualquer Buda, pois o mundo será menos rico se este canto desaparecer.
"Simplesmente olhe à sua volta. Tudo é necessário e tudo se encaixa. É uma unidade orgânica: ninguém é mais alto ou mais baixo, ninguém é superior ou inferior. Cada um é incomparavelmente único. Você é necessário e basta. Na Natureza, tamanho não é diferença. Tudo é expressão igual de vida!"

quinta-feira, 23 de julho de 2009

História do Karaté Shotokan e a Relação com o Sensei Jigoro Kano

A história do Mestre Gichin Funakoshi confunde-se com a própria história do Karaté, por isso a ele é creditado o título de "pai do Karaté moderno", devido aos seus esforços em divulgar essa arte para o mundo e torná-la acessível a todos.

Gichin Funacoshi nasceu em 1869 em Shuri, distrito de Yamakawa-Cho, Okinawa, no mesmo ano da Restauração Meiji. Era filho único, e logo após o seu nascimento foi levado para a casa dos seus avós maternos, onde foi educado, aprendendo poesias clássicas chinesas.

Algum tempo depois ele começou a frequentar a escola primária, Mestre Gichin Funakoshi , conheceu um rapaz de quem ficou muito amigo. Esse rapaz era filho de Yasutsune Azato, um dois maiores especialistas de Okinawa na arte do Karaté, e membro de uma família das mais respeitadas. Logo Funakoshi começava a ter as suas primeiras lições de Karaté. Como na época a prática de artes marciais era proibida em Okinawa, os treinos eram realizados à noite, no quintal da casa do Mestre Azato. Lá ele aprendia a dar socos, dar pontapés, e mover-se conforme os métodos praticados naqueles dias. O treino era muito rigoroso e o Mestre Azato tinha uma filosofia de treino que se chamava "Hito Kata San Nen", ou seja, "um Kata em três anos".

Enquanto praticava no quintal de Azato com outros jovens, outro gigante do Karaté, Mestre Itosu, amigo de Azato, aparecia e observava-os fazendo os Katas, fazendo comentários sobre as suas técnicas. Era uma rotina dura que terminava sempre de madrugada sob a disciplina rígida do mestre Azato, do qual o melhor elogio se limitava a uma única palavra: "Bom!". Após os treinos, já quase ao amanhecer, Azato falava sobre a essência do Karaté.

Após vários anos, a prática do Karaté deu uma grande contribuição à saúde de Funakoshi, que fora uma criança muito frágil e doentia. Ele gostava muito do Karaté, mas como não pensava que pudesse fazer dele uma profissão, inscreveu-se, e foi aceite, como professor de uma escola primária, em 1890, aos 21 anos, aproveitando toda a sua cultura adquirida desde a infância. Esta deveria ser sua carreira a partir de então.

Prestou exame na Escola de Medicina de Tóquio, no qual foi aprovado, mas devido a uma nova lei que proibia aos homens o porte do CHON MAGE (símbolo de virilidade e da maturidade) não pôde realizar os seus estudos. E por esse motivo voltou-se para a pratica e estudo aprofundado do Karaté , no qual se tornaria posteriormente seu representante máximo. Ele tinha uma personalidade marcante e alguns aspectos como uma natural benevolência, uma distinção de maneiras, uma ímpar gentileza e respeito por todos, além de uma energia forte, muita coragem, determinação e uma força mental altamente capacitada, que o tornaram uma figura que, para muitos, era sinônimo de alguém "mais que humano", um "tatsujin" (indivíduo fora do comum) que contrastava ainda mais as suas virtudes com o seu pequeno porte físico (1,67m. para 67 Kg.), sendo admirado por seus contemporâneos.

No começo deste século, em 1902, durante a visita de Shintaro Ogawa, que era então o inspetor escolar de Kagoshima, à escola de Funakoshi em Okinawa, foi feita uma demonstração de Karaté. Funakoshi impressionou bastante devido ao seu status de educador. Ogawa ficou tão entusiasmado que escreveu um relatório ao Ministério da Educação elogiando as virtudes da arte. Foi então que o treino de Karaté passou a ser oficialmente autorizado nas escolas. Até aí o Karaté só era praticado atrás de portas fechadas, mas isso não significava que fosse um segredo. As casas em Okinawa eram muito próximas umas das outras, e tudo que era feito numa casa era conhecido pelas outras casas adjacentes.

Contra os pedidos de muitos dos mestres mais antigos de Karaté, que eram a favor de manter tudo em segredo, Funakoshi trouxe o Karaté, com a ajuda de Itosu, até o sistema de escolas públicas. Logo, as crianças na escola estavam aprendendo os Katas como parte das aulas de Educação Física. A redescoberta da herança étnica em Okinawa era moda, então as aulas de Karaté em Okinawa eram vistas como uma coisa boa.

Alguns anos depois, o Almirante Rokuro Yashiro (na altura Capitão) assistiu a uma demonstração de Karaté. Essa demonstração foi feita por Funakoshi junto com uma equipa composta pelos seus melhores alunos. Enquanto ele narrava, os outros executavam os Katas, quebravam telhas e, geralmente, chegavam ao limite dos seus pequenos corpos. Funakoshi enfatizava sempre o desenvolvimento do caráter e a auto-disciplina nas suas narrações, durante essas demonstrações. Quando ele participava, gostava de executar o Kata Kanku Dai, o maior do Karaté, e talvez o mais representativo. Yashiro ficou tão impressionado que ordenou a seus homens que iniciassem o aprendizado na arte.

Em 1912, a Primeira Esquadra Imperial da Marinha ancorou na Baía de Chujo, sob o comando do Almirante Dewa, que selecionou doze homens da sua tripulação para estudarem Karaté durante uma semana. Foi graças a esses dois oficiais da Marinha que o Karaté começou a ser comentado em Tokyo. Os japoneses que viam essas demonstrações levavam as histórias sobre o Karaté consigo quando voltavam ao Japão. Pela primeira vez na sua história, o Japão acharia algo na sua pequena possessão de Okinawa além de praias bonitas e o ar puro.

Em 1921, o então Príncipe Herdeiro Hirohito, em viagem para Europa, fez escala em Okinawa e assistiu uma demonstração de Karaté, liderada por Funakoshi, e ficou muito impressionado. Por causa disso, no final desse mesmo ano, Funakoshi foi convidado para fazer uma demonstração de Karaté em Tokyo, numa Exibição Atlética Nacional. Ele aceitou imediatamente, acreditando ser esta uma ótima oportunidade para divulgar a arte. Sua demonstração de Kata foi um sucesso. Ele pretendia retornar logo para Okinawa mas, depois da exibição, Funakoshi foi cercado por pedidos para ficar no Japão ensinando Karaté. Uma das pessoas que pediu para que ele ficasse foi Jigoro Kano, o fundador do JuDo e presidente do Instituto Kodokan. Funakoshi resolveu ficar mais alguns dias para fazer demonstrações técnicas no próprio Kodokan.

Algum tempo depois, quando se preparava novamente para retornar a Okinawa, foi visitado pelo pintor Hoan Kosugi, que já tinha assistido a uma demonstração de Karaté em Okinawa, e pediu que ele lhe ensinasse a arte. Mais uma vez o seu regresso foi adiado. Funakoshi percebeu então que se ele quisesse ver o Karaté propagado por todo o Japão ele mesmo teria que fazê-lo. Por isso, resolveu ficar em Tokyo até que a sua missão fosse cumprida.

Kosugi foi uma das pessoas que convenceram Funakoshi a ensinar Karaté no Japão.

Ele também o convenceu a registrar todo o seu conhecimento num livro e prometeu presenteá-lo com uma pintura para a capa. Essa pintura, o Tora No Maki ("Tora" em japonês quer dizer tigre, e "Maki" em japonês quer dizer rolo ou enrolado), foi usada para ilustrar a capa do livro "Karate-Do Kyohan" para simbolizar força e coragem. A irregularidade do círculo indica que provavelmente ele foi pintado com uma única pincelada. O carácter ao lado da cauda do tigre (em cima à direita) é parte da assinatura do artista.


No Japão, Funakoshi foi ajudado por Jigoro Kano, o homem que reuniu muitos estilos diferentes de Ju Jutsu para criar o Judo. Kano tornou-se amigo íntimo de Funakoshi, e sem a sua ajuda nunca teria havido Karaté no Japão. Kano introduziu Funakoshi às pessoas certas, levou-o às festas certas, caminhou com ele através dos círculos sociais da elite japonesa. Mais tarde, naquele ano, as classes mais altas dos japoneses convenceram-se do valor que o treino do Karaté possuia. Funakoshi fundou um Dojo de Karaté num dormitório para estudantes de Okinawa, em Meisei Juku. Ele fez vários trabalhos, entre eles o de jardineiro, para se poder alimentar, enquanto ensinava Karaté à noite.

Em 1922, fora escolhido para representar a arte de Okinawa numa apresentação em Tóquio para demonstrar a arte do Karaté. Como já tinha mais de cinquenta anos, não correspondia, ao mito do "budoka terrível" que o Japão procurava fazer sobreviver, na época, mas, mesmo assim, a sua apresentação foi muito bem sucedida. Muitos aspectos da personalidade de Funakoshi passaram a ser conhecidos, através de histórias, por aqueles que conviviam com ele, como por exemplo Genshin Hironishi, seu discípulo, que dizia que o seu mestre se opunha às gerações vindas após a Segunda Guerra Mundial, pois continuava a seguir hábitos da sua época, anterior a Primeira Guerra Mundial. Dizia ele que Funakoshi se recusava a frequentar uma cozinha ou a pronunciar certas palavras japonesas modernas, existentes na sua época, dizendo que sem elas passava muito bem. Uma outra peculiaridade interessante no seu comportamento, é que a primeira coisa que ele fazia era a sua toalete matinal que durava cerca de uma hora, durante a qual escovava os cabelos com infinita paciência, depois voltava-se em direção ao Palácio Imperial e saudava-o com respeito, inclinando-se e fazia a mesma saudação a Okinawa. Depois desses rituais tomava o chá da manhã, e ia trabalhar.

O Sensei Funakoshi deixou-nos muitos pensamentos que espelham a filosofia do Karaté e as suas técnicas, bem como a sabedoria oriental. Além disso, deixou-nos dois importantes caminhos que levam à uma vida harmoniosa, são eles o "DOJOKUN" e o "NIJUKUN" que são os lemas do Karaté, os quais devem ser seguidos por todos os praticantes do Karaté:

DOJOKUN

Esforçar-se pela formação do caráter

Ser uma pessoa conhecida por ajudar os outros é muito mais importante que ser conhecido por ter força ou por conseguir dar pontapés e socos bonitos. Ser querido é melhor que ser temido. Tornar-se uma boa pessoa é o mais importante de tudo para o karateca. Praticar o Karaté para obter principalmente paciência, perseverança, concentração e humildade. Em combate, desenvolver a humildade, a piedade, o controle.

Criar o Intuito do esforço.

Mesmo quando não se está a dar conta é muito importante estar sempre a tentar desenvolver a habilidade que não se possui. Quando se tem pouca paciência, é suportando gradualmente cada vez mais que se aumenta. Quando se é fraco, é suportando uma carga um pouco maior que se vai conseguir fortalecer. Esforçar implica ir além dos limites, sejam eles físicos ou espirituais. Este item deve ser treinado principalmente fora do DOJO: esforçar-se mais na escola (no estudo e no comportamento), em casa (no respeito e na obediência), e no trabalho.

Respeitar acima de tudo.

A essência do Karaté-Do é a cortesia, porque o seu propósito é o aperfeiçoamento pessoal ("Não nos aperfeiçoamos para lutar, mas lutamos para nos aperfeiçoar."), e este aperfeiçoamento deve revelar-se em todos os aspectos da pessoa. A pessoa deve pensar de modo mais correcto, sentir de modo mais harmonioso, conseguir movimentar-se com mais equilíbrio e precisão e relacionar-se com os outros de modo mais sensato. Não devem importar os motivos mas o nosso comportamento final. Por isto o "acima de tudo". Quem segue verdadeiramente este preceito não vai justificar depois uma conduta desrespeitosa, mas vai sempre demonstrar nas atitudes a ideia que abraça.

Conter o espírito de agressão.

As pessoas possuem em si o instinto animal que as impele a comportar-se como tal, e o animal agride quando ferido ou quando seu espaço pessoal é invadido e neste comportamento ele muitas vezes se expõe à morte. O homem, por ser superior (potêncialmente superior), se ofendido, tem a opção de chamar o ofensor à razão ou procurar uma situação mais confortável longe dele, se provocado, pode procurar uma visão diferente que o permita entender quem o está a provocar. Só quem busca conter o lado animal é que realmente pode alcançar toda a dimensão do Karaté-Do, porque, quando se está vazio de todos os pensamentos e intenções premeditadas, se pode refletir o mínimo impulso que sobre ele se projeta.

Fidelidade para com o verdadeiro caminho da razão.

A razão é a faculdade de avaliar, julgar, estabelecer relações lógicas e entender, e é um atributo exclusivo da espécie humana. O karateca busca tornar-se cada vez mais humano e, ao mesmo tempo que combate o lado animal, cultiva o espiritual. Tenta assim buscar os motivos, entender as consequências, refletir as atitudes, compreender o mundo e a vida enfim. O que distingue um aluno de um mestre ou sensei é que o sensei "nasceu antes" para a vida de reflexão em torno dos motivos que regem a vida.

NIJUKUN

Os 20 ensinamentos do Mestre Funakoshi

HITOTSU - KARATEDO WA REI NI HAJIMARI REI NI OWARU KOTO WO WASURUNA

Não se esqueça que o Karaté se deve iniciar com uma saudação e terminar com uma saudação.

HITOTSU - KARATE NI SENTE NASHI

No Karaté não existe atitude ofensiva.

HITOTSU - KARATE WA GI NO TASUKE

O Karaté é um assistente da justiça.

HITOTSU - MAZU JIKO WO SHIRE SHIKOSHITE TAO WO SHIRE

Conheça-se a si próprio antes de julgar os outros.

HITOTSU - GIJUTSU YORI SHINJUTSU

O espírito é mais importante do que a técnica.

HITOTSU - KOKORO WA HANATAN WO YOSU

Evitar o descontrole do equilíbrio mental.

HITOTSU - WAZAWAI WA GETAI NI SHOZU

Os infortúnios são causados pela negligência.

HITOTSU - DOJO NO MI NO KARATE TO OMOUNA

Karaté não se limita apenas à academia.

HITOTSU - KARATE NO SHUGYO WA ISSHO DE ARU

O aprendizado do Karaté deve ser perseguido durante toda a vida.


HITOTSU - ARAI YURU MONO WO KARATEKA SEYO SOKO NI MYOMI ARI

O Karaté dará frutos quando associado à vida quotidiana.

HITOTSU - KARATE WA YU NO GOTOSHI TAEZU NETSUDO WO ATAEZAREBA MOTO NO MIZU NI KAERU

O Karaté é como a água quente. Se não receber calor constantemente torna-se água fria.

HITOTSU - KATSU KANGAE WA MOTSUNA MAKENU KANGAE WA HITSUYO

Não pense em vencer, pense em não ser vencido.

HITOTSU - TEKI NI YOTTE TENKA SEYO

Mude de atitude conforme o adversário.

HITOTSU - TATAKAI WA KYOJITSU NO SOJU IKAN NI ARI

A luta depende do manejamento dos pontos fracos (KYO) e fortes (JITSU).


HITOTSU - HITO NO TEASHI WO KEN TO OMOU

Imagine que os membros dos seus adversários são como espadas.

HITOTSU - DANSHIMON WO IZUREBA HYAKUMAN NO TEKI ARI

Para cada homem que sai do seu portão, existem milhões de adversários.

HITOTSU - KAMAE WA SHOSHINSHA NI ATO WA SHIZENTAI

No início os seus movimentos são artificiais, mas com a evolução tornam-se naturais.

HITOTSU - KATA WA TADASHIKU JISSEN WA BETSUMONO

A prática de fundamentos deve ser correcta, porém na aplicação torna-se diferente.

HITOTSU - CHIKARA NO KYOJAKU KARADA NO KANKYU WAZA NO SHINSHUKU WO WASURUNA

Não se esqueça de aplicar correctamente: alta e baixa intensidade de força, expansão e contracção corporal, técnicas lentas e rápidas.



HITOTSU - TSUNE NI SHINEN KUFU SEYO

Estudar, praticar e aperfeiçoar-se sempre.



Em 1922, a pedido do pintor Hoan Kosugi, Funakoshi publicou o seu primeiro livro: "Ryukyu Kenpo Karaté", um livro que tratava dos propósitos e da prática do Karaté. Na introdução daquele livro ele já dizia que "...a pena e a espada são inseparáveis como as duas rodas de uma carroça".

O grande terremoto de Kanto, em 1º de setembro de 1923 destruiu as placas do seu livro, e levou alguns dos seus alunos com ele. Ninguém morreu com o tremor, os incêndios provocaram as mortes. O terremoto ocorreu durante a hora do almoço, no momento muitos fogões a gás no Japão estavam ligados. Os incêndios que ocorreram a seguir foram monstruosos, e maioria das vidas perdidas deveu-se ao fogo. Contudo, este livro teve grande popularidade e foi revisto e reeditado quatro anos após o seu lançamento, com o título alterado para: "Rentan Goshin Karaté Jutsu".

Em 1925, Funakoshi começou a pegar em alunos de vários colégios e universidades na área Metropolitana de Tokyo, e nos anos seguintes, esses alunos começaram a fundar os seus próprios clubes e a ensinar Karaté a estudantes destas escolas. Como resultado, o Karaté começou-se a espalhar por Tokyo.

No início da década de 30 existiam clubes de Karaté em cada universidade de prestígio de Tokyo. Mas por que estava Funakoshi a conseguir tantos jovens interessados no Karaté desta vez? O Japão estava a fazer uma Guerra de Colonização na Bacia do Pacífico. Eles invadiram e conquistaram a Coréia, a Manchúria, a China, o Vietnam, a Polinésia, e outras áreas. Então, os jovens que iam para a guerra vinham ter com Funakoshi para aprender a lutar, assim eles poderiam sobreviver ao recrutamento nas Forças Armadas Japonesas. O seu número de alunos aumentou bastante.

Por volta de 1933, Funakoshi desenvolveu exercícios básicos para prática das técnicas em duplas. Tanto o ataque de cinco passos "Gohon Kumite" como o de um "Ippon Kumite" foram usados. Em 1934, um método de praticar esses ataques e defesas com colegas de um modo menos restricto, semi-livre "Ju Ippon Kumite", foi adicionado ao treino. Finalmente, em 1935, um estudo de métodos de luta livre (Ju Kumite) com oponentes finalmente tinha começado. Até então, todo o Karaté treinado em Okinawa era composto basicamente de Katas. Mas agora, os alunos poderiam experimentar as técnicas dos Katas uns com os outros sem causar danos sérios.

Nesta época, em 1935, foi publicado outro livro: "Karaté-Do Kyohan". Este livro tratava basicamente dos Katas. Funakoshi era Taoísta, e ele ensinava Clássicos Chineses, como o Tao Te Ching de Lao Tzu, enquanto estava a viver em Okinawa. Funakoshi era profundamente religioso. Ele tinha muito medo que o Karaté se tornasse um instrumento de destruição, e provavelmente queria eliminar do treino algumas aplicações mortais dos Katas. Então, ele parou de fazer essas aplicações. Ele também começou a desenvolver estilos de luta que fossem menos perigosos. Funakoshi teve sucesso ao remover do Karaté técnicas de quebras de juntas, de ossos, dedos nos olhos, chaves de cotovelo, esmagamento de testículos, criando um novo mundo de desafios e luta em equipa onde somente umas poucas técnicas seriam permitidas. Ele fez isso baseado nos seus propósitos e com total conhecimento dos resultados.

Em 1936, Funakoshi mudou os caracteres Kanji utilizados para escrever a palavra Karaté. O caracter "Kara" significava "China", e o caracter "Te" significava "Mão". Para popularizar mais a arte no Japão, ele mudou o caracter "Kara" por outro, que significa "Vazio". De "Mãos Chinesas" o Karaté passou a significar "Mãos Vazias", e como os dois caracteres são lidos exactamente da mesma maneira, então a pronúncia da palavra continuou a mesma. Além disso, Funakoshi defendia que o termo "Mãos Vazias" seria o mais apropriado, pois representa não só o facto de o Karaté ser um método de defesa sem armas, mas também por representar o espírito do Karaté, que é esvaziar o corpo de todos os desejos e vaidades. Com essa mudança, Funakoshi iniciou um trabalho de revisão e simplificação, que também passou pelos nomes dos Katas, pois ele também acreditava que os japoneses não dariam muita atenção por qualquer coisa que tivesse a ver com o dialeto caipira (do interior) de Okinawa. Por isso ele resolveu mudar não só nome da arte mas também os nomes dos Katas. Ele estava certo, e o número de praticantes aumentou ainda mais.

Funakoshi tinha 71 anos em 1939, e foi nessa altura que ele deu o primeiro passo num Dojo de Karaté, a 29 de Janeiro. O prédio foi feito de doações particulares, e uma placa foi pendurada sobre a entrada e dizia: "Shotokan". "Sho" significa pinheiro. "To" significa ondas ou o som que as árvores fazem quando o vento bate nelas. "Kan" significa edificação ou salão. "Shoto" (ondas de pinheiro) era o pseudonimo que Funakoshi usava para assinar os seus textos quando jovem, pois quando ele ia escrevê-los recolhia-se em lugares mais afastados, onde pudesse ir buscar inspiração, ouvindo apenas o som dos pinheiros ondulando ao vento. Esse nome dado ao Shotokan Karaté Dojo foi uma homenagem dos seus alunos. Daí surgiu o nome de uma escola (estilo) que até hoje é cultivada em várias partes do mundo. SHOTO (pseuDonimo de Funakoshi) e KAN (escola, classe). A "Escola de Funakoshi".

A necessidade de um treino nas artes militares estava em crescimento. Muitos jovens se estavam a amontoar no Dojo, vindos de todas as partes do Japão. O Karaté progrediu muito nessa onda de militarismo e estava a desfrutar de uma aceitação acelerada como resultado.

Finalmente o Japão cometeu um grande erro. O bombardeamento das forças navais americanas em Pearl Harbor a 7 de Dezembro de 1941 foi um erro. Numa tentativa de prevenir que as embarcações americanas bloqueassem a importação japonesa de matéria-prima, os japoneses tentaram remover a frota americana e varrer a influência Ocidental do próprio Oceano Pacífico. O plano era bombardear os navios de guerra e os porta-aviões que estavam no território do Hawai. Isto deixaria a força da América no Pacífico tão fraca que a nação iria pedir a paz para prevenir a invasão do Hawai e do Alasca. Infelizmente, o pequeno Japão não tinha os recursos, força humana, ou a capacidade industrial dos Estados Unidos. Com uma mão nas costas, os americanos destruíram completamente os japoneses na Ásia e no Pacífico. Uma das vítimas dos ataques aéreos foi o Shotokan Karaté Dojo que havia sido construído em 1939.

Com a América a execer uma enorme pressão em Okinawa, a esposa de Funakoshi finalmente iria deixar a ilha e juntar-se a ele em Kyushu no Sul do Japão. Eles ficaram lá até 1947. Os americanos destruíram tudo que encontraram no seu caminho. As ilhas foram bombardeadas do ar, todas as cidades queimadas até o fim, as colinas crivadas de balas pelos cruzadores de guerra que se situavam bem longe da costa, e então as tropas varreram a ilha, prendendo todas as pessoas que estivessem vivas. A era dourada do Karaté em Okinawa tinha acabado. Todas as artes militares haviam sido banidas rapidamente pelas forças ocupantes americanas.

Primeiro uma, depois outra bomba atómica explodiram sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki. Três dias depois, bombardeiros americanos sobrevoaram Tokyo em tal quantidade que chegaram a cobrir o Sol. Tokyo foi bombardeada com dispositivos incendiários. Descobrindo que o governo do Japão estava a ponto de cometer um suicídio virtual sobre a imagem do Imperador, cartas secretas foram passadas para os japoneses garantindo sua segurança se eles assinassem uma "rendição incondicional". O Japão estava acabado, a Guerra do Pacífico também, mas o pesadelo de Funakoshi ainda havia de acabar.

Nesta época, Gigo (também conhecido como Yoshitaka, dependendo como se pronunciava os caracteres do seu nome), filho de Funakoshi, um promissor jovem mestre de Karaté no seu próprio direito, aquele que Funakoshi estava a contar para o substituir como instrutor do Shotokan, apanhou tuberculose em 1945 e posteriormente veio a falecer, porque teimosamente recusava-se a comer a ração americana dada ao povo japonês faminto.

Funakoshi e sua esposa tentaram viver em Kyushu, uma área predominantemente rural, sob a ocupação americana no Japão. Mas, em 1947, ela morre, deixando Funakoshi retornar a Tokyo para reencontrar os seus alunos de Karaté ainda vivos. Depois da guerra acabar, as artes militares tinham sido completamente banidas. Entretanto, alguns dos alunos de Funakoshi tiveram sucesso em convencer as autoridades de que o Karaté era um desporto inofensivo. As autoridades americanas concederam então, o recomeço da prática do Karaté, porque não tinham idéia realmente do que era o Karaté e porque também, alguns homens estavam interessados em aprender as artes militares secretas do Japão, então as proibições foram eliminadas completamente em 1948.

Em Maio de 1949, os alunos de Funakoshi movem-se para organizar todos os clubes de Karaté universitários e privados numa simples organização, e eles a chamaram de Nihon Karaté Kyokai (Associação Japonesa de Karaté). Eles nomearam Funakoshi como o seu instrutor chefe. Em 1955, um dos alunos de Funakoshi consegue arranjar um Dojo para a NKK.

Em 1957, Funakoshi tinha 89 anos de idade. Ele foi um professor de escola primária e um estudante de Karaté. Ele mudou-se para o Japão (e não é um pequeno acto de coragem) e trouxe o Karaté consigo em 1922, dando ao Japão algo de Okinawa com o seu próprio jeito pacifista. No processo, ele perdeu um filho, a esposa, o prédio que os seus alunos fizeram para ele, o seu lar, e qualquer esperança de uma vida pacífica. Ele suportou uma Guerra Mundial que resultou em calamidade nacional, e ele treinou os seus jovens amigos e conheceu as suas famílias apenas para os ver ir lutar e serem mortos pelas forças invencíveis dos Estados Unidos. Ele viu o Japão ser queimado, ele viu os antigos templos e santuários serem totalmente aniquilados, ele viu bombardeiros enegrecerem o sol, e ele viu como um pilar de fumo negro que subia de cada cidade no Japão e que envenenava o ar que ele respirava. Ele viu o Japão cair da glória para uma nação miserável, dependendo dos suprimentos de comida e das roupas dos seus conquistadores. O cheiro do fumo e o cheiro dos mortos, os berros daqueles que foram deixados para morrer lentamente, o choro das mães que perderam os seus filhos e das esposas que nunca mais iriam ver os seus maridos, o medo, o ruído ensurdecedor dos bombardeiros B-29's a voar sobre a sua cabeça aos milhares, os clarões como os de trovões por todo o país quando as bombas explodiam em áreas residenciais, os flashes de luz na escuridão, à espera no rádio para poder ouvir a voz do Imperador pela primeira vez, somente para anunciar a rendição, a humilhação de implorar comida aos soldados... os intermináveis funerais e famílias arruinadas e lares destruídos. Tentemos imaginar o que ele suportou!

A lição mais importante que ele nos ensinou está expressa numa das suas histórias narradas por um de seus discípulos: Uma vez quando passava pelo Dojo principal de Jigoro Kano, "o fundador do Judo", ao caminhar pela rua, ele parou e fez uma pequena prece em frente ao Kodokan. Também se estivesse a conduzir um automóvel, ele tiraria o seu chapéu se passasse em frente ao Kodokan. Os seus alunos não entenderam porque estaria ele a rezar pelo sucesso do Judo. Então ele explicou: "Eu não estou a rezar pelo Judo. Eu estou a oferecer uma prece em respeito ao espírito de Jigoro Kano. Sem ele, eu não estaria aqui hoje".

Gichin Funakoshi, o "Pai do Karaté Moderno", morreu em 26 de Abril de 1957. No seu túmulo negro, em forma de cruz, estão as palavras "Karaté Ni Sente Nashi" – "No Karaté não existe atitude ofensiva".

"Alguém cujo espírito e força mental, se fortaleceram através das lutas com uma atitude de nunca desanimar não deve encontrar dificuldades em enfrentar algum desafio, por maior que ele seja. Alguém que suportou longos anos de sofrimento físico e agonia mental para aprender um soco ou um pontapé, deve ter condições de encarar qualquer tarefa, por mais difícil que ela seja, e de executá-la até o fim. Sem dúvida nenhuma, uma pessoa com essas características aprendeu verdadeiramente o Karaté-Do."

A Emergência do Sistema de Graduações


McCARTHY (1995), enfatiza que o actual uso do cinto (obi) à volta do "kimono" (karate-gi) tem raízes no fundador do Judo. Jigoro Kano introduz a inovação de distinguir os diferentes níveis de prática através do desenvolvimento do sistema dan/kyu.

O dan ou cinto negro, indicava um nível de prática avançado e os seus possuidores tornam-se conhecidos como yudansha (recipientes de dan); as graduações de kyu representavam os diversos níveis de competência abaixo do dan, sendo conhecidos como mudansha (aqueles que ainda não receberam o dan).

Segundo apurou o autor já citado, depois de estabelecer o kodokan, Sensei Kano distribuía faixas negras aos seus yudansha para serem usadas no dogi (uniforme de prática) estandardizado e, após 1907, a faixa negra é substituída pelo kuro-obi (cinto negro) que se torna o standard até hoje.

TOKITSU (1993) refere-nos que quando Gichin Funakoshi é convidado em 1921 pelo Sensei Kano para fazer uma demonstração de okinawa-karaté-jutsu no kodokan a 17 de Maio, por um lado, confeccionou à mão o seu kimono a partir de um tecido branco de algodão, tendo como modelo um judogi (assim como confeccionou o do seu assistente S. Gima), e, por outro lado, utilizou um cinto negro por indicação do próprio Jigoro Kano (curiosamente não utilizou o de um Judoka - Gima era cinto negro de Judo - mas sim o do seu quimono de cidade).

TOKITSU (1993) salienta ainda que no início, Jigoro Kano só utilizava o sistema de cinco graus de dan e não o sistema de dez como actualmente se usa. Em 1883 Kano com 23 anos atribui o grau de 1º dan pela primeira vez aos seus alunos Tomita e Saigo.

Quanto a Funakoshi, por influência e conselho directo de J. Kano, desenvolve um sistema de graduações equivalente ao Judo e atribui em 1924 os primeiros diplomas de 1º dan a Kasuya e Gima. É a primeira vez que se passam diplomas de graduação em karaté.

Os outros mestres de karaté fazem progressivamente o mesmo. No início, como no caso do Judo, com um sistema de cinco graus, mas posteriormente, esse sistema passará na maioria das escolas para dez graus.

É ainda de referir que para além do sistema dan/kyu, outros títulos foram atribuídos no seio de algumas organizações, de entre as quais se destaca indiscutivelmente a Dai Nippon Butokukai (Associação Japonesa das Grandes Virtudes Marciais). Fundada em 1895, recebe do governo autorização para "investigar, preservar e promover os bugei Japoneses; fazer exibições e torneios; recolher armas, equipamentos e informações históricas sobre as tradições clássicas de combate; e publicar materiais relacionados com as artes marciais" (McCARTHY, 1995, p. 6 - tradução nossa).

Os títulos gerais desenvolvidos no seio da organização foram, do mais alto para o mais baixo: Hanshi, Kyoshi (originalmente conhecido como Tasshi) e, a partir de 1934, foi adicionado o título de Renshi.

O reconhecimento do karatejutsu de Okinawa como uma Arte Marcial Japonesa estava dependente dos critérios de desenvolvimento da modalidade que o Butokukai lançou aos seus mestres:

Desenvolver um uniforme standard;

Adoptar o sistema de graduações dan/kyu de J. Kano;

Estabelecer um sistema de ensino/avaliação;

Mudar o primeiro ideograma e adicionar o sufixo do;

Criar um formato competitivo seguro para testar o espírito dos seus estudantes.

Após o encontro destes critérios de desenvolvimento da modalidade em Dezembro de 1933, abriram-se as portas para o reconhecimento do karatedo como um Budo Japonês moderno e assim, reconhecer os mestres de Karaté como mestres de Budo.

Em 1935, segundo TOKITSU (1993), Chojun Miyagi apresenta-se para fazer exame para um título de Mestre de Budo no Butokukai, sendo a primeira pessoa a apresentar-se em Karaté, disciplina ainda não reconhecida como budo. Obtém o título de kyoshi (segundo nível) o que, para o mesmo autor, é excepcional já que os fundadores das outras três escolas obtêm apenas o título de renshi (terceiro nível) - Hironori Ohtuka (Wado-Ryu) obtém-o em 1938, Kenwa Mabuni (Shito-Ryu) e Gichin Funakoshi (Shotokan) em 1939. Nesta época tais títulos eram indispensáveis para a consolidação do reconhecimento do Karaté como budo.

Por fim, e antes de concluirmos estes considerandos iniciais, gostaríamos de evidenciar que, do ponto de vista mais objectivo, a graduação no Butokukai era, e ainda é, a "avaliação do progresso individual rumo à obtenção da perfeição humana através da prática das tradições de luta. Esta avaliação não é apenas baseada em aspectos físicos, mas procura ter em conta o desenvolvimento dos aspectos físico, moral e espiritual do ser humano: o objectivo de cultivar pelo budo o nosso mundo interior é um esforço para evoluir no mundo exterior" (McCARTHY, 1995, p. 7 - tradução nossa).

Assim, no âmbito da problemática central em análise, poderemos concluir:

O sistema de graduações no Karaté desenvolve-se a partir de modelos comuns aos restantes budo, sendo de destacar a enorme influência de Jigoro Kano (fundador do Judo) no estabelecimento do sistema dan/kyu (inicialmente com cinco níveis de dan, e depois com dez).

O sistema de graduações do Karaté (dan/kyu) nasce com um propósito técnico claro, procurando distinguir os níveis de prática dos praticantes, mas encerra também um propósito político: o reconhecimento público oficial da modalidade.

O sistema de graduações dos mestres de budo (três níveis: hanshi, renshi e kyoshi) emerge como forma de reconhecimento público dos mestres das diversas disciplinas reconhecidas pelo Butokukai e, na época, para os mestres de Karaté, tais títulos eram importantes, colocando-os a par como os mestres de Judo ou Kendo no âmbito de uma organização governamental.

A Origem das Faixas Coloridas no Aikido Por Don Cunningham




Tradução feita por Cristiano Lobo – Instituto Takemusu Dojo Central

Lendas e mitos floresceram junto com a prática de artes marciais, tais como o judo e o karate, desde o começo. Ainda, parece não haver significância maior do que aquela associada com as origens místicas da cobiçada faixa preta. Para o espanto de muitos praticantes de artes marciais, a história da faixa preta é um tanto pequena no contexto geral...

Muitas histórias existem a respeito da honrada faixa peta em vários estilos de artes marciais. Uma das mais comuns que se ouve é a de que o artista marcial novato começou tradicionalmente com uma faixa branca. Como ele treinou e praticou durante anos, a faixa tornou-se suja, primeiramente marrom e finalmente preta assim que aperfeiçoou suas habilidades marciais. Apesar dessa extraordinária metáfora ter sido fornecida com um pouco de folclore, infelizmente, não se tem nenhuma fonte verídica. As faixas coloridas nunca fizeram parte da antiga tradição das artes marciais.

Na verdade, a faixa preta foi usada primeiramente para designar a habilidade ou o grau no Judo Kodokan há pouco mais de cem anos. O Dr. Jigoro Kano, um educador e entusiasta do esporte, foi o primeiro a usar a faixa preta como um símbolo para os estudantes graduados e possuidores de Dan em sua escola, a Kodokan, fundada em 1882, em Tokyo. Antes disto, as escolas de Jujutsu, como a maioria das outras escolas de artes japonesas tradicionais, utilizavam o complicado sistema de Menkyo como uma forma de licenciar os estudantes aos níveis técnicos de habilidades particulares.

Uma compreensão do sistema educacional japonês e das circunstâncias sociais requerem uma perspectiva histórica. O treinamento sistemático de guerra e de armas desenvolveu-se primeiramente nas tradições marciais, escolas, ou estilos (ryu ha) entre os séculos 11 e 15. Os Samurais reuniram-se em clãs, centrados em torno das famílias ou regiões, para o treinamento de armas específicas e técnicas marciais. Assim que o treinamento se tornou mais distinto e individual, os estilos marciais ou escolas (bujutsu ryu) começaram a se formar no início do período Tokugawa (1600-1868).

Antigas artes marciais do Japão foram eventualmente classificadas em dezoito ramificações diferentes, como mencionadas no Bugei Ju-Happan. Basicamente, estas categorias são: kyujutsu, hojutsu, tantojutsu, naginatajutsu, mojirijutsu, bajutsu (horsemanship), sojutsu, shurikenjutsu, ganshinjutsu, toritejutsu, kusarigamajutsu, bojutsu, shinobijutsu, suijutsu, kenjutsu (swordsmanship), battojutsu, jutte-jutsu, jujutsu. Paralelamente, muitas escolas de outras artes, tais como a caligrafia (shodo), pintura (sumi-e), ou as formas de cerimônia do chá (chado), foram criadas também para disseminar suas técnicas e estilos distintos. Estas escolas também usaram o sistema do Menkyo para licenciar seus graduados.

Geralmente os estudantes destes antigos ryu ha foram primeiramente licenciados como Shoden. Seus rankings progrediram então com Chuden, Okuden/Mokuroku, Menkyo, e finalmente, Menkyo Kaiden, o último significado, literalmente, "licença da transmissão total." Entretanto, cada ryu ha seguiu seus próprios critérios para licenciar estudantes. A seqüência particular e mesmo os vários títulos eram frequentemente diferentes entre si.

As Graduações (rank) eram designadas geralmente por certificados especialmente criados ou por cartas escritas à mão do professor ou fundador. Frequentemente, os níveis mais elevados eram acompanhados da apresentação de um Densho, pergaminhos de instruções manuscritas ou de registros dos segredos dos fundadores das várias escolas. Alguns Densho forneciam instruções detalhadas e ilustrações gráficas de técnicas particulares. Outros usavam palavras e/ou caracteres descritivos que serviam como uma ajuda à memória para técnicas avançadas (memória minemônica). Os últimos documentos originais eram sem sentido às pessoas não familiarizadas com a linguagem particular dos ryu ha.

Devido à natureza sigilosa dos vários ryu ha e seus instrutores, o sistema de graduação do menkyo teve várias desvantagens. Primeiramente, não havia nenhuma maneira de avaliar ou comparar níveis de habilidade equivalentes dos graduados das escolas diferentes. Adicionalmente, as etapas entre licenças separadas podiam levar o praticante a qualquer lugar de alguns meses a diversos anos, dependendo da filosofia ou do estilo particular do professor.

Em sua juventude, Kano aprendeu primeiramente as bases do jujutsu de Teinosuke Yagi. Mais tarde, estudou o jujutsu de Tenshin Shinyo Ryu sob Hachinosuke Fukuda e Masatomo Iso, bem como o jujutsu Kito Ryu sob Tsunetoshi Iikubo. Foi iniciado nos segredos de ambas as escolas.

Após ter fundado sua própria escola; o Kodokan em 1882, Dr. Kano fez também estudos acadêmicos de muitos outros estilos do jujutsu. Além a visitar e praticar com os mestres ainda vivos, examinou com cuidado o Densho dos outro ryu ha de jujutsu. Logo depois que se decidiu dar forma a seu próprio estilo de jujutsu, Dr.. Kano revisou também o sistema de graduação (ranking), criando dez etapas com os intervalos relativamente curtos para manter os estudantes de judo interessados em progredir através dos vários níveis técnicos.

Em 1883, o Dr. Kano dividiu seus estudantes em dois grupos, dos não-graduados (mudansha) e dos graduados (yudansha), de acordo com Naoki Murata, diretor do museu de judo do Kodokan. Os primeiros yudansha, ou grau Shodan, eram dois estudantes famosos no Kodokan nesse tempo, nomeados Tsunejiro Tomita e Shiro Saigo. Estes dois estudantes foram também os primeiros promovidos a segundo dan um ano mais tarde.

Shiro Saigo, imortalizado no romance de ficção de Tsuneo Tomita, o "Sugata Sanshiro," e nas adaptações nos filmes de Akira Kurosawa (década de 40) sobre os infames torneios entre o judo e o jujutsu, pulou o terceiro dan e foi promovido diretamente a quarto dan no ano seguinte, em 1885, relata Muraka. Neste período, todas as graduações de Dan foram anunciadas diretamente pelo Dr. Kano ou fixadas em placas no Kodokan.

As faixas pretas não foram usadas como símbolos de graduação Dan no Kodokan até 1886 ou 1887, relembra Muraka, sobre a época dos torneios metropolitanos da polícia de Tokyo entre a escola de jujutsu fundada por Hikosuke Totsuka e pelo Kodokan do Dr. Kano. Após a vitória decisiva do Kodokan, os certificados ou os diplomas não foram emitidos pelo Kodokan até 1894, quase onze anos após a criação do sistema de graduação Dan do judo.

Eventualmente, a habilidade ou o nível do judoka vieram a ser denotados pelas faixas coloridas usadas em torno da cintura com o judogi. No Japão, as faixas brancas são geralmente usadas por todas as graduações de kyu, embora algumas escolas usem também a faixa marrom para indicar os níveis mais elevados do kyu. As faixas azul, amarela, alaranjada, verde, e roxa usadas pelos níveis intermediários do kyu tiveram origem na Europa e foram importadas para o sistema dos Estados Unidos durante o início dos anos 50.

As faixas pretas são tradicionalmente usadas pelos praticantes competitivamente graduados, primeiro dan (shodan) até o quinto dan (godan). Uma faixa vermelha e branca é usada pelos níveis merecidos pelo serviço prestado ao judo, sexto dan (rokudan) até o oitavo dan (hachidan), e as faixas inteiramente vermelhas são reservadas para o nono dan (kudan) e o décimo dan (judan).

O karate incorporou ambos os sistemas, a graduação Dan e o uso da faixa preta, quando Gichin Funakoshi, o mestre do karate de Okinawa, primeiramente demonstrou e mais tarde ensinou a base de sua arte marcial de Okinawa no Japão durante a década de 20 no Kodokan. O sistema de graduação Dan foi eventualmente incorporado ao Kendo (a arte da espada), ao Aikido, e à maioria das outras artes tradicionais.

A origem das faixas coloridas, bem como, o significado das cores particulares, ainda é encoberta de mistérios, e pode permanecer perdida na história. Embora não tenha deixado nenhuma razão registrada para as várias cores usadas, o Dr. Kano deixou alguns indícios. De acordo com sua doutrina filosófica, não há limites para as melhorias e para o progresso que se pode ter no seu treinamento de judo. Assim, o Dr. Kano acreditou que se alguém conseguisse um estágio mais elevado do que o décimo dan, retornaria conseqüentemente à faixa branca, terminando desse modo o círculo completo do judo, como o ciclo da vida.

No caso desta eventualidade, deve-se salientar que o Kodokan decidiu que a faixa usada por tal pessoa deveria ser aproximadamente duas vezes mais larga que a faixa comum, para impedir que os novatos confundissem o significado. Até agora, o Dr. Kano é a única pessoa com a graduação de décimo segundo dan e com o título de Shihan.

O Dr. David Matsumoto, autor de “An introduction to Kodokan history and philosophy", cita uma combinação de duas possibilidades para o uso tradicional das faixas brancas, o significado simbólico da cor e dos aspectos práticos da produção do uniforme.

“Primeiramente, o branco teve um significado especial, simbólico na cultura japonesa por séculos”, Dr. Matsumoto escreve. "O povo japonês considera geralmente a cor branca como sendo o reflexo da pureza divina desde épocas antigas."

Assim, as faixas brancas podem ser mais apropriadas para refletir a pura inocência e virtude dos iniciantes, de acordo com o Dr. Matsumoto. Pode também refletir a seleção do algodão usado no material do judogi. Após o uso e lavagem freqüente, o material colorido ou amarelo natural do algodão tende a tornar-se branco.

Uma suposição não-autêntica a respeito das faixas pretas usadas pelos níveis Dan é que o Dr. Kano emprestou o conceito dos esportes japoneses das escolas de ensino médio. Os competidores avançados eram separados dos novatos em torneios de natação por uma fita preta usada em torno da cintura. Como um distinto educador e entusiasta dos esportes, o Dr. Kano estava certamente ciente desta tradição e pode tê-la incorporado em suas práticas no Kodokan.

A seleção das faixas vermelhas e brancas para distinguir os níveis mais elevados pode também ter sido baseada em uma preferência cultural simples, de acordo com Meik Skoss, um notável historiador das artes marciais e autor de artigos numerosos sobre artes marciais japonesas. Os Japoneses dividem tipicamente grupos em lados vermelhos e brancos, baseados em um evento histórico pivotante. A Genpei War era uma disputa entre dois clãs rivais, o Genji e Heike. O Genji usava as bandeiras brancas para identificar suas tropas no campo de batalha, enquanto o Heike usava bandeiras vermelhas.

Como exemplos, o Sr. Skoss aponta o semestral jogo Kouhaku Shiai do Kodokan, onde os estudantes de judo são divididos em dois grupos, vermelhos e brancos. Esta competição teve início logo depois que o Kodokan foi formado e transformou-se em um evento tradicional. Além do mais, os competidores no judo moderno são distinguidos por uma faixa branca ou vermelha na cintura, enquanto que os competidores do kendo são identificados por um tasuki vermelho ou branco, uma fita pequena amarrada à parte traseira da armadura.

Dr. Kano tinha uma afinidade particular por idiomas e grande interesse acadêmico em literatura clássica Chinesa, especialmente o I Ching, ou Livro das Mutações. O I Ching é basicamente uma coleção de sabedorias morais e políticas baseadas no conceito dos opostos mútuos, o Yin e o Yang. A escolha das faixas vermelhas e brancas feita pelo Dr. Kano deve ter sido uma representação simbólica do princípio da harmonia indicado pelo equilíbrio de Yin e Yang.

Por outro lado, a criação do sistema de graduação Dan do Dr. Kano deve ter representado uma rejeição radical à cultura japonesa e uma maneira deliberada de diferenciar seu novo e melhorado sistema, dos estilos tradicionais de Jujutsu, de acordo com Skoss.

" A era Meiji foi uma época de grandes mudanças sociais, econômicas e políticas – e Kano estava certo no meio disso tudo," disse Skoss. "Ele foi um inovador em seus métodos e teve alguns problemas óbvios com a cultura feudal japonesa. Por exemplo, ele não ficava feliz com a maneira que muitos praticantes de jujutsu eram como os Punks das ruas, e que usavam o que tinham aprendido para extorquir dinheiro dos transeuntes ou para satisfazer seus egos distorcidos."

Como um educador e um racionalista, que desdenhou superstições sem fundamentos, Dr. Kano quis criar um sistema de treinamento que não fosse prejudicar o físico de seus alunos e também levasse ao desenvolvimento de um padrão moral elevado e um forte caráter individual. Ainda, ela estava em conflito com os ryu mais antigos de Jujutsu, mas, sentiu muito que a tradição cultural tinha sido validamente preservada . Sua adoção de um sistema novo de graduação deve ter sido uma rejeição às tradições do Jujutsu e uma preservação da hierarquia tradicional japonesa.

" A sociedade japonesa é verticalmente estruturada" Skoss explica. "Um forte senso de posição relativa está presente em toda a interação social, e símbolos de graduação também tem sido parte de uma cultura voltada para o período Heian e até mesmo antes."

Skoss citou a adoção dos níveis de hierarquia encontrados nos mais antigos relatos da soberania Imperial Japonesa, bem como os chapéus coloridos denotando níveis e fortes regulamentações indicando relações de graduação durante esses períodos. A utilização das faixas coloridas pelo Dr. Kano para denotar níveis de graduação deve ter sido desenvolvida a partir dessas tradições, de acordo com Skoss.

Seja qual for a razão, a obtenção da faixa preta ainda representa uma significante evolução em habilidades técnicas e habilidades competitivas para a maioria dos Judokas de todo o mundo. Contudo, como todos os Judokas graduados com Shodan rapidamente aprendem, isto também representa um passo inicial no caminho para uma consciência superior e um grande aperfeiçoamento, e que pode levar uma vida inteira de dedicação.